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O calendário que esqueceu a mulher

O calendário que esqueceu a mulher

Vivemos dentro de um calendário criado há séculos por homens que queriam organizar o mundo, controlar a agricultura, a economia, a religião e a vida em sociedade.

Esse sistema, o calendário gregoriano, ainda hoje em vigor, determinou a forma como entendemos o tempo: linear, progressiva, constante. Uma linha reta que vai do início ao fim, com horas que se acumulam e dias que se esgotam.

Mas o tempo natural, o tempo do corpo e da Terra, não funciona assim. Ele é circular, cíclico, vivo. E quando nos desconectamos desse ritmo, perdemos a harmonia que sustenta o equilíbrio entre a vida interior e o mundo exterior.

 

Durante milhares de anos, antes da imposição deste tempo artificial, as civilizações antigas viviam em sintonia com os ciclos da natureza.

O nascer e o pôr do sol marcavam o trabalho e o descanso, as fases da lua orientavam as celebrações e os rituais, e as estações do ano davam o compasso para plantar, colher, criar e repousar. Havia uma compreensão profunda de que tudo na vida se move em espiral: o que morre alimenta o que nasce, o que termina dá origem ao que começa. Era um tempo orgânico, intuitivo e espiritual, o tempo da Terra e, consequentemente, o tempo da mulher.

 

Quando Júlio César criou o calendário juliano, no século I a.C., e mais tarde Gregório XIII o reformulou, no século XVI, para o alinhar com o movimento solar, inaugurou-se uma nova forma de viver o tempo. O Sol, símbolo da razão, da ordem e da constância, substituiu a Lua como referência universal. O que antes era fluido tornou-se fixo; o que era natural transformou-se em estrutura; o que era vivenciado como um ciclo passou a ser medido como produtividade. O tempo deixou de ser vivido e passou a ser gerido.

 

O problema é que essa forma linear de ver o tempo não espelha a realidade da vida.

A natureza não cresce todos os dias, não floresce o ano inteiro, não dá frutos em todas as estações.

 

O inverno existe para que a terra descanse; o outono chega para que possamos soltar o que já não serve; a primavera desperta a energia da renovação; e o verão convida à expansão e à partilha.

A sabedoria da Terra ensina-nos que há momentos para avançar e momentos para recuar, tempos de movimento e tempos de silêncio.

 

No entanto, a sociedade moderna ignora esses ritmos, exigindo constância, produtividade e aceleração, mesmo quando o corpo, a mente e a alma pedem pausa.

 

Esta desconexão é particularmente sentida pelas mulheres, cuja natureza é profundamente cíclica.

Quando uma mulher tenta adaptar-se a um modelo de tempo que não respeita a variação, o recolhimento e a transformação, ela entra em desequilíbrio. O corpo reage, a mente fragmenta-se, o espírito cansa-se. O tempo que seguimos hoje foi desenhado para servir sistemas, não pessoas. E muito menos corpos que vivem em comunhão com os ciclos da Terra.

 

Reconectar-se com o tempo natural é, por isso, um ato de liberdade e de cura. É recordar que o inverno é tão necessário quanto a primavera, que o recolhimento é tão fértil quanto a ação, e que o repouso é parte essencial do crescimento. É permitir-se viver em harmonia com as estações, externas e internas, e reconhecer que cada momento da vida tem uma energia própria. Não se trata de rejeitar o calendário, mas de deixar de ser prisioneira dele, resgatando uma relação mais consciente e orgânica com o tempo.

 

Perguntas para reflexão

  • Tenho respeitado o meu ritmo natural ou vivo constantemente em aceleração?
  • Que estação do ano melhor representa o momento em que estou na minha vida?
  • Como seria a minha rotina se fosse guiada mais pela natureza do que pelo relógio?
  • O que precisaria de deixar ir para permitir que algo novo nasça?
  • Que espaço estou disposta a criar para o silêncio, o descanso e o renascimento?

 

Sugestões práticas para viver em harmonia com o tempo natural

  • Observa as estações — Sente a energia de cada uma e ajusta a tua rotina em conformidade. No inverno, permite-te abrandar e refletir; na primavera, inicia novos projetos; no verão, partilha e celebra; no outono, liberta e simplifica.
  • Cria rituais sazonais — A cada mudança de estação, faz uma pausa para te reconectares: acende uma vela, escreve intenções, limpa o espaço, agradece o ciclo que termina e acolhe o novo.
  • Planeia com consciência — Em vez de viveres pelo calendário imposto, cria o teu próprio ritmo. Define tempos de trabalho e de descanso que respeitem a tua energia real, não a que o sistema exige.
  • Escuta o corpo — Ele é o teu melhor relógio. Aprende a reconhecer os sinais de cansaço, expansão e necessidade de recolhimento. O corpo sabe o que a mente esquece.
  • Celebra a lentidão — A natureza não apressa nada, e tudo acontece. Dá-te o direito de fazer o mesmo.

 

Talvez o maior ato de rebeldia feminina hoje seja recusar a pressa e recuperar o direito de viver o tempo em plenitude, com presença e consciência.
O calendário gregoriano organizou o mundo, mas desligou-nos da sabedoria da vida.
Voltar a viver segundo o compasso da Terra é regressar a casa, um lugar onde o tempo não se mede em produtividade, mas em consciência, propósito e harmonia.